quinta-feira, 1 de março de 2007

Páginas versus Paraíso


Manoel Carlos é considerado um dos novelistas que melhor retratam a realidade. "Maneco", como é chamado pelos colegas, sempre foi eficiente ao mostrar as mazelas da sociedade e dos relacionamentos. Foi assim com todas suas novelas de grande sucesso: "História de Amor", "Por Amor", "Laços de Família", "Mulheres Perturbad...", digo, "Mulheres Apaixonadas" (rs) e por aí vai. Um talentoso escritor de folhetins, ele também é um dos que melhor escrevem diálogos. É só lembrarmos de muitas cenas de suas obras, como a conversa entre o personagem Alex (interpretado pelo excelente ator Marcos Caruso) e Léo (feito pelo jovem e competente ator Thiago Rodrigues), onde o primeiro defende sua posição como avô e a permanência da guarda de seu neto. Um diálogo marcante, com toda a certeza. Mas Manuel Carlos ficou repetitivo! O grande escritor da realidade brasileira (principalmente, a carioca!) se perdeu - ou se cansou - de desenvolver de forma mais dinâmica e interessante a história de "Páginas da Vida". A novela acabou pendendo para assuntos ordinários, como traições, briguinhas de casais ciumentos, a peituda sedutora fatal e sua irmãzinha caipira e mais algumas encheções de lingüiça. Se já não bastasse aguentar os títulos melosos que ele sempre escolhe para suas novelas, "Páginas da Vida" não teve o clima certeiro de seus outros folhetins e ainda ficou sendo a novela da Tânia Mara! Com uma trilha sonora que possui outros hits, como um do Coldplay, parece que a direção só preferiu tocar a música "Se Quiser", uma versão da música "Anytime" de Kelly Clarkson. Isso não seria tão óbvio se não soubéssemos que o diretor Jayme Monjardim é ninguém menos que o namorado (!) da cantora Mara. Enfim, com núcleos manjados, tramas já bobas e personagens que ficaram meio esquecidos, Manoel Carlos atropelou "Páginas da Vida" assim como ele já havia atropelado uma de suas melhores personagens na trama: a Nanda (feita pela ótima atriz Fernanda Vasconcellos). De lá pra cá, parece que Maneco abandonou um pouco sua competência e realizou uma de suas obras mais medíocres.

Gilberto Braga é o Cara! Arrisco a dizer isso, mas ainda não vi uma novela desse grande escritor ser um total fracasso. Sim, houve aquelas que não tiveram tanta audiência como o esperado; "Pátria Minha" e "Força de um Desejo" (essa, transmitida no horário das 18h) são duas delas, mas mesmo assim, se formos analizar, a coerência, a história que se desenvolve de forma linear mas com reviravoltas interessantes e a inteligência crítica e sarcástica de Gilberto é uma coisa que nunca faltou em suas tramas! Personagens inesquecíveis (quem irá esquecer da Escrava Isaura, a dançarina Júlia, a trambiqueira Raquel de Fátima, o mulherengo Felipe Barreto, a vingativa Laura Prudente de Moraes e o charmoso e megalomaníaco vilão Renato Mendes?), sequências antológicas (a briga de Malu Mader com Claudia Abreu no banheiro em "Celebridades" e a revolta de Regina Duarte rasgando todo o vestido de noiva da filha ingrata Glória Pires em "Vale Tudo" já entraram para a história da teledramaturgia) e histórias muito bem elaboradas estão sempre presentes em qualquer obra de sua autoria. Inteligente, politizado e irônico, Gilberto Braga marcou o Brasil com várias novelas de enorme sucesso... e com um elenco que ele sempre costuma escolher junto com o diretor, "Paraíso Tropical", certamente, tem tudo para ser mais um marco em sua carreira. E, se eu pudesse apostar, eu apostaria nessa próxima novela das oito!

*Links para conhecer um pouco mais sobre os dois autores:
http://www.teledramaturgia.com.br/manoel.htm

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